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Sal & Relâmpago



A luz da manhã não rompeu a escuridão; ela apenas se infiltrou. Era um leite pálido e aguado que transbordava do parapeito da janela e se empoçava no chão de pedra, sem calor suficiente para afugentar o frio da noite.

 

Luna jazia imóvel, seu corpo desenhando sob o lençol de linho um pesado mapa topográfico de cumes e vales. Ela inspirou, uma tragada rasa de ar que tinha gosto de pedra velha e lavanda seca — o cheiro da conservação. Era o cheiro de um quarto que não mudava há uma década, uma exposição de museu de uma infância que se esticara, fina e translúcida, até a idade adulta sem nunca romper a amarra.

 

Hoje era o dia. A trigésima volta. Trinta verões, trinta invernos.

 

O número parecia redondo e duro em sua mente, como um seixo de rio polido alojado em sua garganta. Trinta anos de sóis nascendo e se pondo sobre a Acrópole, trinta anos das estações girando sua grande roda, e, no entanto, enquanto ela olhava para as rachaduras no gesso do teto — rachaduras que ela havia nomeado e renomeado desde os cinco anos — ela não sentia nenhum acúmulo de tempo. Ela sentia apenas uma suspensão. Ela era uma respiração presa, esperando por uma exalação que nunca vinha.

 

Ela se sentou, o movimento exigindo um esforço de vontade deliberado e consciente, como se o ar ao seu redor tivesse engrossado em uma gelatina transparente. Seus pés encontraram o chão frio. O choque deveria ter sido revigorante, mas foi apenas uma informação monótona: frio.

 

Ela se aproximou do espelho de bronze em sua penteadeira. O metal estava polido ao extremo, mantido imaculado pelos escravos da casa, mas o reflexo que ele devolvia parecia tremular, como se visto através de uma bruma de calor. Uma mulher olhava de volta. Cabelos escuros, pálpebras pesadas que pareciam ter visto muito sono e pouca vida. Sua pele era sem manchas, lisa — lisa demais. Era a pele de uma fruta mantida em uma adega, intocada pelo manuseio bruto do mercado.

 

— Trinta — sussurrou ela.

 

A palavra caiu morta no quarto, absorvida pelas tapeçarias que retratavam heróis matando bestas — tapeçarias que sua mãe tecera antes de Luna nascer.

 

Ela se vestiu mecanicamente. O quíton que escolheu era de um açafrão apagado, uma cor que deveria ter sido vibrante, mas parecia desbotar no momento em que tocava sua pele. Ela o prendeu no ombro com uma fíbula de prata, presente de um amante que ela não via há dois anos.

 

Homens. O pensamento passou por sua mente como uma folha morta em um lago estagnado. Houve homens. Ela não era virgem; ela havia oferecido esse símbolo anos atrás, não por paixão, mas por uma vaga curiosidade, uma investigação científica sobre o que os poetas gritavam aos ventos.

 

Tinha sido… correto.

 

Essa era a palavra que a assombrava. Correto. O atrito da pele, o calor, a respiração pesada — era um mecanismo biológico, intrincado e funcional, como o moer de uma pedra de moinho. Ela observara os rostos deles se contorcerem em êxtase, sentira seus corpos tremerem, e permanecera ali, deitada sob eles, olhando para o teto, perguntando-se se tinha esquecido de regar os jacintos. Ela sentira o peso deles, mas nunca sentira a centelha. O fogo que diziam que os deuses haviam roubado para a humanidade parecia ter sido esquecido em sua argila.

 

Ela ajustou o alfinete. Ele picou seu dedo, uma minúscula gota carmesim inchando na ponta. Ela observou, fascinada. A cor era chocante no quarto cinzento. Era a única coisa que parecia real. Ela a limpou, e o cinza retornou.

 

— Luna?

 

A voz atravessou a pesada porta de carvalho. Sua mãe. O tom era suave, modulado, mas carregava aquela vibração familiar e sutil de ansiedade — um fio esticado apenas uma fração a mais do que deveria.

 

— Estou acordada, Mãe — respondeu Luna. Sua própria voz soava estranha aos seus ouvidos, oca, como se estivesse falando dentro de um jarro.

 

— Não demore. Seu pai já saiu para a Ágora, mas espera que a casa esteja em ordem antes de você sair para suas… lições.

 

Lições. A palavra era um tapinha suave na cabeça. Aos trinta anos, ela ainda era uma estudante. Ainda uma aprendiz. Ainda em "processo de tornar-se".

 

Luna abriu a porta e saiu para o corredor. A casa era grandiosa, pilares de calcário robusto sustentando um teto que abrigara três gerações. Era um lugar de segurança. Era um lugar de Lei. Tudo tinha seu lugar aqui. As ânforas estavam alinhadas por tamanho. As lâmpadas de óleo eram preenchidas exatamente no mesmo nível todas as manhãs. Era um mundo de ordem perfeita e sufocante.

 

Ela atravessou o pátio central. O pilar Yakin, a enorme coluna central que seu pai encomendara para sustentar o átrio, erguia-se imóvel no centro. Era esculpido com relevos dos legisladores, rostos severos vigiando a esfera doméstica. Era forte. Mantinha o teto de pé. Se desmoronasse, o céu cairia. Mas olhando para ele, Luna sentiu uma pressão fantasma em seus ombros, como se ela, e não a pedra, estivesse suportando o peso da arquitrave.

 

Ela comeu seu café da manhã — bolo de cevada e figos — no pequeno triclínio. Os figos eram doces, a cevada tinha gosto de nozes, mas os sabores registravam-se apenas como dados. Doce. Granuloso. Não havia prazer na mastigação.

 

— Você vai visitar o Templo do Pai hoje? — perguntou sua mãe, entrando na sala.

 

Era uma mulher pequena, mas ocupava o espaço com a densidade de uma estrela colapsada. Suas mãos estavam sempre ocupadas, endireitando, dobrando, corrigindo.

 

— Zeus — corrigiu Luna gentilmente. — Para o meu sacrifício de aniversário.

 

— Sim, sim. O Rei. — Sua mãe alisou uma ruga na toalha de mesa que Luna não tinha visto. — Não demore lá, Luna. As ruas não são mais o que eram. E não deixe aquela… mulher… te segurar até tarde. Soteira não tem noção dos horários de uma casa.

 

— Ela está me ensinando as Grandes Artes, Mãe.

 

— Ela está te ensinando a mexer panelas — fungou sua mãe, embora a crítica fosse entregue com um sorriso. — Mas isso te mantém ocupada. Te mantém longe de problemas.

 

Te mantém longe de problemas.

 

A frase ecoou. Segurança. Essa era a moeda desta casa. O risco era o inimigo. A paixão era o inimigo, pois a paixão era confusa e imprevisível. Aqui, sob o olhar dos Legisladores, sob a sombra do grande Pilar, a vida era segura. A vida era previsível. A vida era… cinza.

 

Luna levantou-se, limpando as migalhas do colo.

 

— Tenho que ir. A lição começa na terceira hora.

 

— Use seu xale — gritou sua mãe. — O vento está cortante.

 

Luna pegou o xale — lã pesada, áspera e quente — e enrolou-o em volta de si. Parecia uma bandagem.

 

Ela saiu para a rua. A cidade estava desperta. O barulho do mercado, o zurro dos burros, os gritos dos mercadores — tudo isso a banhou, uma maré caótica. Normalmente, ela se encolheria, puxando o xale com mais força, caminhando com os olhos nos paralelepípedos para evitar o olhar de estranhos.

 

Mas hoje, na trigésima volta, o barulho parecia distante. Abafado. Como se ela estivesse caminhando debaixo d'água.

 

Ela se movia através da multidão como um fantasma. As pessoas se desviavam dela, inconscientemente dando espaço para a mulher que parecia não estar totalmente presente. Ela caminhou em direção à periferia, em direção ao jardim de Soteira, onde os muros altos mantinham a selvageria do mundo à distância.

 

Ela pensou no sacrifício em sua bolsa — um pequeno pote de mel e uma coroa de folhas de carvalho para Zeus. Parecia inadequado. O que o Rei dos Deuses queria com folhas? O que o Senhor do Céu, o lançador de relâmpagos, queria de uma mulher cuja alma parecia um porão?

 

Ela queria pedir algo a ele, mas não sabia o quê. Não amor — isso parecia exaustivo demais. Não riqueza — ela tinha conforto.

 

Eu quero sentir, pensou ela, a compreensão surgindo lentamente. Eu quero sentir algo afiado. Mesmo que corte.

 

Ela parou.

 

Estava passando por uma fonte pública, uma cabeça de leão jorrando água em uma bacia. A água era clara, capturando a fraca luz do sol.

 

E então, a luz mudou.

 

Ela não diminuiu. Ela pesou.

 

O ruído ambiente da rua — os gritos, as carroças, o vento — desapareceu instantaneamente, cortado como se por uma faca. Um silêncio absoluto e zunidor desabou no lugar.

 

Luna não conseguia respirar. O ar tinha se tornado sólido. Ele pressionava contra seu peito, contra seus olhos, contra seus tímpanos. Era a pressão de águas profundas do oceano, a pressão de terra empilhada sobre um caixão.

 

Ela tentou virar a cabeça, mas seus músculos não obedeciam. Ela estava presa em âmbar.

 

No reflexo da bacia de água, algo se moveu.

 

Não era o reflexo dela.

 

O rosto que olhava de volta da água era antigo. A pele parecia lama de rio rachada, os olhos eram poços profundos de escuridão faminta. Era um rosto de fome absoluta e aterrorizante. Uma boca capaz de engolir mundos.

 

Não estava olhando para ela. Estava olhando através dela, como se ela fosse uma janela, ou uma refeição que ainda não havia sido servida.

 

Uma voz, não ouvida, mas sentida — uma vibração na medula de seus ossos, profunda e ressonante como o ranger de placas tectônicas — pronunciou uma única palavra.

 

Minha.

 

A gravidade da terra pareceu dobrar. Os joelhos de Luna cederam.

 

E então, tão rapidamente quanto viera, a pressão desapareceu.

 

O som da rua rugiu de volta — um burro zurrando, um mercador gritando o preço das azeitonas. A água na fonte chapinhava alegremente, refletindo apenas seu próprio rosto pálido e aterrorizado.

 

Luna engasgou, sugando um ar que de repente parecia fino demais, leve demais. Ela agarrou a borda de pedra da bacia, os nós dos dedos brancos.

 

— A senhora está bem, mestra? — perguntou um garoto que passava, parando com uma cesta de pão.

 

Luna olhou para ele. Ele era brilhante, colorido, real. Ele não tinha sentido. Ele não tinha sentido o mundo parar.

 

— Eu… — Sua voz tremia. Ela pigarreou, forçando a máscara de compostura de volta ao lugar. — Estou bem. Apenas… uma tontura. O calor.

 

— É um dia fresco, mestra — disse o garoto, confuso.

 

— Sim — sussurrou Luna, olhando de volta para a água, que agora não mostrava nada além de céu e pedra. — Sim, é verdade.

 

Ela se afastou da fonte. Ela tinha que chegar ao jardim. Ela tinha que chegar a Soteira. Soteira saberia o que era aquilo. Soteira a protegeria. Soteira era a Salvadora.

 

Mas enquanto caminhava, a sensação daquele olhar pesado permaneceu, um ponto frio entre as omoplatas, a sensação de um relógio iniciando uma contagem regressiva que ela não podia ver. O cinza da manhã se fora, substituído por uma sombra mais escura e afiada.

 

O predador havia farejado o rastro...


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A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é um modelo de psicologia clínica fundamentado nas ciências comportamentais. Seu foco é desenvolver a flexibilidade psicológica necessária para agir em harmonia com seus valores fundamentais, mesmo diante de desafios internos complexos.

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