Os Sete Véus da Alma: Quando Luna Desceu com Inanna (Parte 3)
- Gulsah Meza

- 25 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A pergunta ecoava na mente de Luna, tão assombrosa quanto o eco dos passos demoníacos seguindo Inanna: "Se você me deixar ir, deixarei qualquer um tomar o meu lugar." Uma escolha precisava ser feita, um sacrifício era necessário. Luna sentia uma tensão familiar, o medo da perda, a dificuldade de abrir mão daquilo a que se apega.
Ela continuou lendo, o resultado se aproximando:
Então Inanna criou Dumuzi, seu amado.
Os sete demônios caíram sobre ele.
"É ele! Levem-no embora!"
A decisão de Inanna, a escolha de Dumuzi... Luna sentiu uma mistura complexa de incompreensão e tristeza. Amor, paixão... às vezes, até os laços mais fortes pareciam sujeitos às leis implacáveis do submundo.
Uma pausa. Luna se lembrou de um término doloroso, da sensação de ter sido escolhida e depois abandonada. A complexidade dos relacionamentos, a dinâmica de poder e sacrifício... o mito continuou a ressoar estranhamente com sua própria experiência.
Ela pegou o livro novamente, as últimas páginas ficando mais claras:
Depois que Inanna emergiu do submundo,
A alegria enche os corações.
Os deuses se alegraram.
A terra exultou.
A ascensão, a alegria, o retorno à luz... Luna sentiu uma onda de otimismo inundá-la. A descida não era um fim, mas um passo necessário para o renascimento. O poder de Inanna, forjado nas profundezas, estava de volta.
Inanna estava cheia de novas forças.
Ela carregava consigo a sabedoria do submundo
E o poder da deusa do céu.
Ela era Amor, Sexo e Guerra.
Essas últimas palavras ressoaram em Luna. Integração. Não rejeitar as partes obscuras, mas abraçá-las para se tornar mais completa, mais forte. Amor e guerra, gentileza e força, luz e sombra... tudo isso poderia coexistir, enriquecendo-se mutuamente. Ela pensou em suas próprias "sombras" domadas, em sua raiva transformada em afirmação, em sua vulnerabilidade transformada em fonte de empatia.
O livro permanecia aberto em seu colo, o silêncio do jardim repleto de uma nova ressonância. A leitura havia terminado, mas a jornada interior continuava. Luna se sentia diferente, mais ancorada, como se uma força ancestral tivesse despertado dentro dela. O mito de Inanna não era apenas uma história distante; era um espelho de sua própria jornada, um mapa de seu próprio inconsciente.
Ela compreendeu então que a descida às sombras, esse confronto com Ereshkigal, não fora uma destruição, mas uma iniciação. Ao perder suas sete insígnias, Inanna tocara sua essência mais crua e autêntica. E, ao recuperá-las, ela as reinvestira com um novo poder, enriquecido pelo conhecimento das profundezas.
Da mesma forma, as partes sombrias que encontramos dentro de nós não existem para nos destruir. Elas são guardiãs de tesouros escondidos, fontes de energia bruta que, uma vez integradas, podem nos tornar mais completos, mais poderosos. A jornada ao submundo da nossa própria psique pode ser assustadora, mas a ascensão, o renascimento, traz consigo a promessa de uma nova força e plenitude.
O sol se punha suavemente, pintando o jardim com cores quentes. Luna se levantou, sentindo uma conexão mais profunda com o ciclo da natureza, com sua constante alternância de fluxo e refluxo, de sombra e luz. E se você também se permitisse reconhecer os ecos dessa jornada dentro de você? Talvez seja hora de começar a explorar, com delicadeza e coragem, as profundezas do seu próprio ser, pois é aí, na integração de todas as suas partes, que reside o seu verdadeiro poder...




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